As mudanças no Agro e o Novo Papel dos Agrônomos - As tecnologias podem competir com você!

Matheus Alberto Cônsoli e Fernando Kolya dão continuidade a série de 6 artigos, que abordará temas relevantes sobre "As mudanças no Agro e o Novo Papel dos Agrônomos". Nesse quarto artigo, tem como foco o tema sobre "As tecnologias podem competir com você". Não deixe de acompanhar e se atualizar!

Considerando as novas tecnologias e digitalização da agricultura, uso de plataformas e softwares, redes neurais, algoritmos e sistemas de predição, o trabalho de operação e diagnóstico de campo, por exemplo, realizado por técnicos poderá ser feito por equipamentos, sensores e sistemas. O agrônomo pode competir com essas tecnologias ou as incorporar no seu processo de trabalho.

Assim, abordamos aqui três mudanças que os profissionais do campo terão de incorporar às suas rotinas para acompanhar a digitalização do agro, e transformá-las em oportunidades e benefícios.

O setor de tecnologia da informação e comunicação é o mais digitalizado do mundo ao passo que a agricultura é o setor da economia com menor grau de digitalização¹. Isso quer dizer que até 2015 a agricultura era o setor com menor gasto em hardware, software, infraestrutura e serviços de TI, transações on line (compra e venda) e contratação de pessoas especializadas em TI. A fazenda típica no mundo não está conectada, não usa software, não investe em equipamentos de digitais, não compra on line, não vende on line, não se comunica digitalmente. Mas isto está prestes a mudar! Se por um lado a digitalização é baixa, por outro é o 4º setor da economia mundial com maior potencial de automação². Duas questões primordiais vêm à mente quando pensamos no trabalho dos profissionais que atuam dentro das fazendas e são o objetivo de discussão do presente artigo: 1) quais os impactos caso esse potencial de digitalização se concretizar? 2) o que deve mudar no perfil do profissional que atua dentro da porteira se este potencial se realizar?

Quais os impactos caso este potencial de digitalização se concretize?

Para analisar os impactos é importante entender em que processos e atividades chave dentro da operação agrícola estas tecnologias podem afetar. Dois grupos de atividades chamam a atenção devido ao seu alto potencial de digitalização e impacto na vida de quem opera dentro da fazenda, são as atividades de coleta e processamento de dados

Coleta de dados:

A atividade de coleta de informações é algo que temos visto com alguma frequência tais como o monitoramento da temperatura e umidade em tempo real, produtividade da colheita, velocidade de aplicação de produtos, quantidade de fertilizantes aplicados por unidade de área, leitor ótico de folhas para identificação e pragas. Menos comum, é o monitoramento da lavoura com drones e sensores, mas que devem tornar mais baratos e mais eficientes os processos de monitoramento de pragas e estágio da lavoura. Em fazendas modernas na pecuária de leite os animais usam brincos que medem temperatura, atividade de ruminação, movimentação do animal, tempo se alimentando, número de ordenhas no dia etc. Estes são alguns exemplos de como a coleta de dados tem sido facilitada pelo processo de digitalização das fazendas. A segunda etapa do processo de digitalização é a análise dos dados coletados e geração de informação e conhecimento.

Análise de dados:

A análise de dados tem um potencial formidável, e talvez seja a atividade que mais irá desafiar os profissionais, isso por que existem soluções no mercado que usam algoritmos para indicar o melhor momento de aplicação de produtos que faz com que a aplicação de produtos seja otimizada. Ou então softwares que armazenam todas as operações agrícolas ao longo da safra e analisam e compraram a rentabilidade de cada talhão, indicando o melhor manejo sob o ponto de vista financeiro. No caso da pecuária de leite, o brinco que acompanha diversos indicadores de cada animal é capaz de se antecipar a análise visual de inflamação das tetas da vaca (mastite) ou mesmo indicar a existência de problemas gástricos e doenças antes do animal manifestar sintomas visuais.

O que deve mudar no perfil do profissional que atua dentro da porteira?

Analisando o impacto da digitalização em coleta e processamento de informações fica claro que as máquinas irão realizar uma boa parcela das atividades de coleta e análise de dados feitas por humanos atualmente. Por exemplo, o processo de monitoramento de lavoura demandará menos horas de humanos no campo. Quer dizer que vai faltar trabalho para agrônomos, zootecnistas, médicos veterinários e técnicos? Muito pelo contrário, vai sobrar tempo para outras atividades mais produtivas! Mas para aproveitar este tempo os profissionais deverão ter outras ferramentas em suas caixas! Outro ponto positivo é que o campo de atuação se torna ainda mais amplo. Como por exemplo integrando a equipe de startups no agro (Agtechs). Como exemplo temos a AgroSmart, empresa que promete um sistema de irrigação inteligente com economia de água e energia elétrica e que tem entre seus fundadores jovens formados em agronomia. Outro exemplo é a Inceres, que desenvolveu softwares inteligentes para manejo da agricultura, com resultados superiores em produtividade e fertilidade da lavoura e gestão de dados.

Assim, os profissionais do agro terão que incorporar três mudanças em sua formação para se manterem atuais no mundo do agro digital.

1. Conhecer: a primeira grande mudança no perfil dos profissionais está relacionada ao conhecimento destas tecnologias, é preciso entende-las já que farão parte de seu escopo de atividades.

2. Incorporar: A segunda mudança é a capacidade de integrar as tecnologias ao seu dia a dia. É preciso se antecipar, ser o agente que leva inovação ao produtor, ser o agente que domina as tecnologias mais modernas para apoiar na tomada de decisão.

3. Superar: A terceira mudança é a capacidade de superar aquilo que a tecnologia entrega, e transforma os dados coletadas e informações geradas pelas máquinas em conhecimento aplicado. O uso de máquinas, automação, algoritmos, inteligência artificial continuará demandando pessoas para construí-las, testa-las, contesta-las e aprimora-las. Abre-se aí um campo de trabalho também para estes profissionais, com especialidades em análise de grande volume de dados gerados (big data) e programação.

E você, concorda com nossa visão? Está preparado para a mudança?

Fontes:

¹ DIGITAL AMERICA: A TALE OF THE HAVES AND HAVE-MORES, McKinsey, Dezembro 2015.

² Human + machine: A new era of automation in manufacturing, McKinsey, Setembro 2017.

Matheus Albeto Cônsoli – Especialista em Estratégias de Negócios, Gestão de Cadeias de Suprimentos, Distribuição e Marketing, Vendas e Avaliação de Investimentos. Doutor pela EESC/USP. Mestre em Administração pela FEA/USP. Administrador de Empresas pela FEA-RP/USP. Professor de MBA’s na FUNDACE, FIA, FAAP, PECEGE/ESALQ, entre outros.
Email: consoli@markestrat.com.br
Fernando Cesare Kolya - Atuação na área de estratégia de canais de distribuição, planejamento estratégico e governança familiar. Mestre em Administração (FEA-USP), é Engenheiro Agrônomo pela ESALQ/USP.

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