As mudanças no Agro e o Novo Papel dos Agrônomos

Matheus Alberto Cônsoli e Rafael Bordonal Kalaki dão continuidade a série de 6 artigos, que abordará temas relevantes sobre "As mudanças no Agro e o Novo Papel dos Agrônomos". Nesse terceiro artigo, tem como foco o tema sobre "Associe conhecimento técnico com informação e recomendações inteligentes!". Não deixe de acompanhar e se atualizar!

Como consequência do tema anterior discutido no artigo anterior, os aspectos técnicos sozinhos já não diferenciam os profissionais. Naturalmente, o conhecimento técnico é a base desse profissional e é (ou foi!) seu grande diferencial. Entretanto, alguns conhecimentos e recomendações que dependiam exclusivamente do conhecimento dos agrônomos passou a ser mais disponível via materiais, internet, plataformas, etc.

Por um longo tempo, o conhecimento técnico do engenheiro agrônomo foi a base de seu diferencial. O agrônomo era um profissional preparado, que tinha conhecimento e informação dos diversos problemas enfrentados pelo produtor rural. O produtor, por sua vez, tinha no engenheiro agrônomo uma fonte de conhecimento e informações técnicas sobre a lavoura, fosse este agrônomo um consultor independente, um representante de empresas de insumos, um representante de cooperativas ou canais de distribuição ou até mesmo, um contratado pela própria fazenda. Isto levou a uma relação estritamente técnica e de confiança, onde o agrônomo era o difusor e a ponte entre as universidades, os cursos de especializações, mestrados, doutorados e o produtor rural.

Com o advento da internet, das redes sociais digitais, dos aplicativos para smartphone, da conectividade, o conhecimento e a informação se tornaram abertos, acessíveis para qualquer pessoa, tanto conhecimentos técnicos, quanto conhecimentos gerais. Isto não só para conhecimentos técnicos agronômicos, mas também para as diversas áreas de conhecimento. Esta mudança, trouxe desafios para todos os profissionais. Não seria diferente para os agrônomos.

Se antes o engenheiro agrônomo era o único difusor e detentor do conhecimento técnico, agora não mais, estes conhecimentos em grande parte, como falado anteriormente, estão disponíveis a todos. Mas o que compete ao engenheiro agrônomo neste cenário então? Bem, compete ao agrônomo agora, se reinventar, buscar algo mais, trazer um diferencial para o produtor, ou então, estará fadado a ser substituído por um smartphone com acesso à internet. E como fazer isso? O que é preciso?

Como dito também nos artigos anteriores, é preciso entender que o produtor mudou e tem novas demanda. Neste sentido, podemos destacar quatro pontos importantes de mudança no perfil dos engenheiros agrônomos em relação à informação.  O primeiro é a profundidade das informações. É preciso aprofundar as questões e conhecimentos técnicos, buscando soluções técnicas inovadoras, de menor custo, mais sustentáveis, que tragam mais retorno ao produtor e que se adequem a sua realidade. Lembre-se, informações básicas já estão disponíveis, busque algo mais profundo. Busque pesquisas cientificas recentes, busque informações de outras regiões, traga cases de sucesso no problema técnico do produtor, mostre novas tecnologias, busque informações que o produtor não terá, se capacite mais.

Como segundo ponto, podemos destacar o entendimento do produtor como um ser individual. Não se pode falar de investimentos astronômicos, ultra tecnológico, para um produtor que esteja descapitalizado. É preciso achar a melhor solução, para aquele produtor específico, a melhor solução que se adeque a realidade dele. Customizar soluções e olhar os produtores de forma individualizada, será uma forte tendência. É preciso entender que cada produtor é único, tem sua maneira de pensar, suas limitações financeiras, suas preferencias e querem ser conhecidos como tal, por isso, levar soluções engessadas, padrão, sem flexibilidade, será um processo cada vez mais difícil.

Um terceiro ponto é a característica multidisciplinar do profissional.  O agrônomo passará de um agente de conhecimento técnico somente, para um profissional multidisciplinar (na medida do possível). O agrônomo além dos conhecimentos técnicos, também deverá levar outras informações, como informações de mercado, informações de novas tecnologias, informações de preço, informações de política, informações de economia, informações sobre o cenário internacional, informações financeiras, informações de economia, taxas de juros, financiamentos, entre outras. Não apenas informações técnicas, mas informações que estejam envolvidas em todo o negócio do produtor.

O quarto e último ponto, e talvez o mais importante, é o olhar de ponta a ponta e o papel de conselheiro. Além de levar um conhecimento mais profundo, com soluções mais customizadas e trazer informações diversas, o papel fundamental do agrônomo será relacionar tudo isso e transformar em informação tácita e ações para o produtor rural. Levar uma solução diferente, inovadora, que se adeque a realidade do produtor, conciliar com informações diversas e mostrar os benefícios ao produtor será o grande desafio.

O profissional deverá ser capaz de entender e mostrar para o produtor qual, por exemplo, qual é o impacto do dólar no negócio dele, como aproveitar o preço e a melhor forma de comercializar, qual a solução que o produtor poderá adotar que fará com que ele aproveite as oportunidades do mercado e tenha melhor rentabilidade, mostrar a importância da sucessão familiar e o como isso pode interferir na decisão de investimento no negócio, mostrar qual o impacto de uma decisão política e de governo pode afetar o negócio dele. Olhar para o negócio do produtor como um todo e não somente para um problema específico, será um grande diferencial.

A forma com o engenheiro agrônomo usará a informação, mudará. Não somente a forma como usar, mas também o tipo de informação.  Além da excelente técnica, a excelência multidisciplinar, o foco na resolução de problemas, a visão sistêmica do negócio, e a solução ideal e personalidade, serão o grande diferencial.

Matheus Albeto Cônsoli – Especialista em Estratégias de Negócios, Gestão de Cadeias de Suprimentos, Distribuição e Marketing, Vendas e Avaliação de Investimentos. Doutor pela EESC/USP. Mestre em Administração pela FEA/USP. Administrador de Empresas pela FEA-RP/USP. Professor de MBA’s na FUNDACE, FIA, FAAP, PECEGE/ESALQ, entre outros.
Email: consoli@markestrat.com.br
Rafael Bordonal Kalaki - Especialista em Planejamento Estratégico de Cadeias Produtivas. Doutorando e Mestre em Administração pela FEA-RP/USP.
Engenheiro Agrônomo formado pela FCAV/UNESP.
Participou de projetos nas áreas de: Análise de Atratividade Setoriais, Mapeamento e Quantificação de Cadeias Produtivas e Planejamento Estratégico.
Email: rkalaki@markestrat.com.br

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